O QUE RESTA | FLÁVIA AZEVEDO

A exposição O que resta, de Julia Kater, é composta por um conjunto de obras, divididas em duas séries, que propõem uma articulação entre imagens e substratos de falas de diversas naturezas. Por meio de minuciosas interferências manuais, a artista articula fragmentos de imaginários, originados tanto daquilo que ouve como daquilo que vê.

 

A série que dá título à mostra apresenta colagens construídas a partir da sobreposição de várias fotografias de uma única paisagem, o entorno da artista num espaço-tempo preciso. As principais figuras foram retiradas da imagem, evidenciadas pela linha do recorte, – aquilo que as diferencia –, restando apenas a paisagem que é comum a todas elas: o horizonte, o céu, o mar. Das cenas com pessoas, que interagiam naquele tempo-espaço, sobrou apenas o rastro; o contorno, que não mais identifica quem estava lá, agora representa seu movimento através da dinâmica de sobreposição de camadas de imagens captadas. E é justamente essa sobreposição, presente em muitos dos trabalhos de Julia, que revela as outras imagens da imagem. O que interessa a ela não é a singularização da figura, mas o diálogo entre sua presença-ausência.

 

Na outra série, Em torno, podemos apreender as ambivalências da linguagem e da percepção. Kater aborda essas relações, porém sem se preocupar em falar intimamente sobre elas. Dessa maneira, preserva uma vez mais o distanciamento da figura, privilegiando sua forma e lembrando que elementos distintos podem coabitar em contornos semelhantes. Ou, como decifra a artista, “a autonomia da linha, quando se livra da forma, passa a ser outra coisa por não ter mais o que de fato contornar”.

 

Com essa narrativa simbólica, percebemos a relevância do contorno nas imagens expostas. O que resta é, então, uma história de sobras e excessos da memória, de imagens e discursos, que encontra seu sentido maior na poesia que existe além das figuras e se mostra incessantemente em torno de nós.

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WHATS REMAINS

Julia Kater’s exhibition, What remains, is composed of a collection of works, divided into two series, that propose an articulation between images and speech substrates of various natures. The artist articulates imaginary fragments through meticulous manual interferences, originated from both what she hears and what she sees.

 

The series that names the exhibition presents collages built from the overlapping of various photographs of a single landscape, the surroundings of the artist in a precise space-time. The main subjects were removed from the image, as evidenced by the line of the cropping – that which differentiates them –, only remaining the landscape that is common to all of them: the horizon, the sky, the sea. Of the scenes with people, who interacted in that time-space, only the trail remains; the outline, which no longer identifies who was there, now represents their movement through the dynamic of overlapping layers of captured images. And it is precisely this overlapping, present in many of Julia’s works, that reveals the other images of the image. What interests her is not the individualization of the figure, but the dialog of its presence-absence.

 

In the other series, Around, we can gather the ambivalences of language and perception. Kater addresses these relationships, but without bothering to speak intimately about them. This way, she preserves once more the distancing of the figure, favoring its shape and reminding that different elements can coexist in similar outlines. Or, as the artist deciphers, “the autonomy of the line, when it gets rid of the shape, becomes something else for not having anything else to actually outline.”

 

With this symbolic narrative, we realize the relevance of the outline in the exposed images. What remains is, then, a story about the leftovers and excesses of the memory, of the images, and of discourses, which finds its wider meaning in the poetry that exists beyond the figures and that incessantly shows around us all.