O ELOGIO DO ENCONTRO | EDER CHIODETTO, 2014

 

Uma garota se curva até o solo e nesse movimento suas costas desenham um arco que casualmente ecoa e dá novo sentido ao conjunto de árvores que estão ao fundo. Figura e fundo, assim captados, não podem mais se dissociarem diante de nossa visão. Ambos passam a ter uma conexão física tão intensa, que tendem a deixar de ser primeiro e segundo plano, para se manifestarem como uma superfície homogênea.

 

Julia Kater cria, em diversos momentos de sua trajetória como artista visual, hiatos que interrogam a fotografia no seu nascedouro. A linguagem que surgiu com a intenção de mimetizar a realidade por meio da perspectiva renascentista – criando assim a ilusão de tridimensionalidade num suporte plano – vê-se desvelada dessa pseudo potência nas várias estratégias criadas por Kater.

 

Kater parece sequestrar as distâncias entre aqui e acolá, entre o que está próximo e o que parece distante. Ao subtrair esses espaços que distam figura e fundo, os corpos se amalgamam em sobreposições que sugerem novos desenhos, novas intersecções que criam um novo e inesperado organismo. Inesperado? Talvez nem tanto para quem, no desafio de observar atentamente a paisagem e seu entorno, perceba cenários em movimentos contínuos, que se alternam e se recombinam o tempo todo. As séries de Kater nos dizem que nada é estático, tudo está apto a ser recriado com novas informações, cores e texturas.

 

Ao raptar os espaços que a fotografia, de fato, não nos mostra – mas para os quais nossa percepção visual foi culturalmente treinada pela história da arte e da representação para assimilá-los – Kater cria colisões que geram o que podemos nomear de eventos escultóricos efêmeros.

 

As inéditas obras da série "Um e Outro", criadas para essa primeira individual de Kater na SIM Galeria, apontam novos desdobramentos na busca incessante por esses eventos escultóricos fortuitos, que a artista tem apreendido nos últimos anos. Os planos fotográficos agora se rebelaram a ponto de escaparem da moldura que os encerravam, como nas séries "Ao Mesmo Tempo" e "Lugar do Outro", por exemplo.

 

Essa inesperada cisão, que gera dois corpos isolados, traz elementos renovados para as relações entre figura e fundo e parece criar um novo foco de interesse da artista, que consiste na fatura quase impossível de se representar no mesmo plano, que é a relação entre o observador e o que este observa na paisagem.

 

Novamente uma garota – será a mesma que curvou as costas diante das árvores? – sugere com sua postura, que está observando algo num horizonte que não nos é possível enxergar. Apenas sugere porque Kater oblitera nossa visão do rosto da garota interceptando-a bruscamente com outro quadro, outro plano. Somos levados instintivamente a pensar em causa e efeito: a garota flerta com a paisagem e, nessa deambulação, ela é envolvida quase inteiramente por aquilo que vê.

 

Se nas séries anteriores o evento escultórico se dava pelo confronto e justaposição de dois corpos distintos, que tendiam a criar um novo desenho-organismo, agora em "Um e Outro", temos um observador que é tomado por aquilo que ele observa. É ele quem elege na paisagem o elemento que irá transformá-lo. Nessa inversão sutil de ponto de vista, a artista parece se ausentar momentaneamente e deixar de orquestrar os encontros entre figura e fundo, para que o observador fotografado por ela lhe indique aquilo que tem o poder de transformá-lo pelo sentido da visão.

 

O estilete com o qual a artista criou as conhecidas incisões na superfície das suas fotografias, para revelar novas camadas significantes sob a paisagem, nesse instante foram transferidos para os olhos dos personagens que ela encontra em seu cotidiano.

 

Escultóricos, orgânicos e desafiadores, esses novos trabalhos de Julia Kater fazem uma espécie de elogio ao encontro entre pessoas, paisagens e histórias. Afinal, são sempre os encontros que nos propiciam transformações nos roteiros que seguimos, desenhando no fluxo contínuo da vida.

 

Eder Chiodetto

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The compliment to the encounter

A girl bends to the ground and through this movement her back draws an arc which casually echoes and gives new meaning to the set of trees that are in the background. Figure and ground, thus captured, can no longer dissociate before our eyes. Both now have such an intense physical connection that they no longer are foreground and background, but manifest as a homogeneous surface.

 

Julia Kater creates, in various moments of her career as a visual artist, hiatuses which question photography in its birthplace. The language that arose with the intent to mimic reality through Renaissance perspective – thus creating the illusion of tridimensionality on a flat support – is seen unveiled of this pseudo power in the various strategies created by Kater.

 

Kater seems to hijack the distances between here and there, between what's near and what seems far away. By subtracting these spaces that are separate figure and ground, bodies amalgamate overlaying in ways that suggest new designs, new intersections that create a new and unexpected organism. Unexpected? Maybe not so much for those who, in the challenge of carefully observing the landscape and its surroundings, notice scenarios that, in continuous movements, alternate and recombine all the time. Kater’s series tell us that nothing is static, that everything is fit to be recreated with new information, colors and textures.

 

In abducting the spaces which photography, in fact, does not show us – but for which our visual perception has been culturally trained by the History of Art and representation to assimilate – Kater creates collisions that generate what we denominate ephemeral sculptural events.

 

The brand new works from the series “Um e Outro” ("One and Another"), created especially for Kater’s first solo exhibition at SIM Galeria, indicate new developments in the relentless pursuit of these fortuitous sculptural events, which the artist has captured in recent years. The photographic planes have now rebelled to the point of escaping the frame that encased them, as in the series "Ao Mesmo Tempo" ("At the Same Time") and "Lugar do Outro" ("The Place of the Other "), for example.

 

This unexpected schism, which generates two isolated bodies, brings renewed elements to the relationship between figure and ground and seems to create a new focus of interest for the artist, which consists in a manufacturing almost impossible to be represented in the same plane, which is the relationship between the observer and the observed in this landscape.

 

Again a girl – is she the same who bent her back before the trees? – suggests with her posture that she is watching something on a horizon that we are unable to see. It only suggests this because Kater obliterates our view of the girl's face intercepting her roughly with another frame, another plane. We are instinctively led to thinking of cause and effect: a girl flirts with the landscape and, in this rambling, she is involved almost entirely by what she sees.

 

If in the previous series the sculptural event occurred through the confrontation and juxtaposition of two distinct bodies, which tended to create a new design-organism, but in “Um e Outro” ("One and Another"), we have an observer that is taken by what he observes. It is him who elects in the landscape the element that will transform it. In this subtle reversal of viewpoint, the artist seems to be momentarily absent and stops orchestrating the encounters between figure and background, so that the observer photographed by it indicate that which has the power to transform him by the sense of sight.

 

The x-acto knife with which the artist created the well-known incisions on the surface of her photographs to reveal significant new layers underneath the landscape, at that moment were transferred to the eyes of the characters she encounters in her daily life.

 

Sculptural, organic and challenging, these new works by Julia Kater make a sort of compliment to the encounter between people, landscapes and stories. After all, these are always the encounters that provide us with transformations in the scripts we follow, drawing on the continuous flow of life.

 

Eder Chiodetto